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#Temor X Pavor

A diferença entre o temor e o pavor

O uso literal do verbo é a sensação física do medo. No uso metafórico esta raiz quando adjetiva é traduzida como “piedoso, temente a Deus”.

24/03/2020 08h57
Por: Redação Verguia
Fonte: Redação
(Foto: Força Aérea Brasileira)
(Foto: Força Aérea Brasileira)

O filme “Dogma [1]” conta uma estória de dois anjos caídos do céu (Matt Damon e Ben Affleck), que passeiam entre os humanos tentando achar um caminho de volta. Em uma das cenas, o anjo Loki, olhando com desprezo para um grupo de homens corruptos e adúlteros diz: “Vocês sabem o que torna o ser humano uma boa pessoa? – Temor”.

O filme é uma droga, mesmo na quarentena, mas a frase do anjo-Matt Damon reflete uma verdade expressa bem claramente em toda a Bíblia. Ela faz uma referência direta a uma passagem bíblica do livro de Provérbios de Salomão, que diz “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria (Pv. 9:10).

A raiz da palavra temor usada neste verso de provérbios, em hebraico: יִרְאָה quer dizer, literalmente, tremer, perder a respiração. [2]

O verbo tem muitos usos, desde o pavor do perigo e da morte, até a sensação de deslumbramento transcendente que o ser humano, pequeno que é, sente quando está diante da grandeza de Deus.

O uso literal do verbo é a sensação física do medo. No uso metafórico esta raiz quando adjetiva é traduzida como “piedoso, temente a Deus”.

Neste verso de Provérbios o verbo refere a sensação de reverência, de respeito diante daquilo que é transcendente, excelso, deslumbrante além da realidade humana, e por isto mesmo aterrorizante, sublime, espantoso. Esta reverência, ou temor é o segredo por trás da sabedoria ou da verdadeira piedade.

Familiaridade com Deus

Aí chegamos de volta ao anjo. “O que torna o ser humano uma boa pessoa – é o temor”.

Opa, o medo de Deus nos torna bons? Pensei que só tivéssemos que temer o diabo.

Não, se pensamos assim nos enganamos.

Familiaridade com Deus é um sentimento enganoso e conduzem muitos à apostasia de confundirem a vontade de Deus com a sua própria. Temer a Deus, tremer, perder a respiração diante do divino, é uma condição essencial da piedade.

Este medo ao “Outro” transcendente está na raiz do comportamento moral humano.

Se você tem temor a este Outro com letra maiúscula, você se sabe devedor, se entende como um ser que presta contas a um poder superior. Você se reconhece pequeno, sabe que não está só no universo para fazer o que te dá na telha.

Principalmente você sabe que não está isento de ter que pautar seu comportamento e seu coração por um código ética que não criou e não tem o direito de modificar.

Este Outro te coloca em seu lugar. O Divino é assombroso, assustador, na Bíblia as pessoas que “se encontraram” com o sobrenatural desta maneira saem da experiência transformadas. Mas o paradoxo é que este “temor” a Deus é um sabido antídoto ao medo.

Opa, como assim? Você não está se contradizendo?

Reconhecimento do sagrado

Não, é isto mesmo. Quando você reconhece o sagrado você se assegura de que não há mais nada a se temer. Porque você é uma mera criatura, não espera ter controle sobre o universo. E porque não tem controle, não te resta nada além de confiar naquele que tem. O pavor a Deus substitui o pavor a todo o resto.

Nestes tempos de Covid-19 é muito fácil ser tomado de ansiedade e medo. Neste poucos dias desta quarentena que já nos parece longa recebemos uma mensagem de What’sApp atrás da outra.

O cenário apocalíptico é transmitido pela foto de um jovem que supostamente morreu em apenas três dias, vídeos de carros de exército esperando para empacotar dezenas de corpos na Itália, um artigo com aparência oficial enfileirando estatísticas aparentemente verossímeis. Sujeitos a uma tempestade de anúncios do caos estamos sempre à beira de um ataque de nervos.

Aprender o segredo bíblico para se libertar do pavor se torna então uma questão de sobrevivência. E o segredo é este: Medo, pavor, tremor diante da incerteza da vida é algo inevitável. Faz parte da condição humana, somos pequenos e frágeis. Nosso mundo que antes nos parecia tão firme pode ruir em poucas semanas de paralisia econômica mundial.

Mas você pode escolher a quem ou ao que vai temer. Pode temer o mal, pode temer um vírus microscópico. Ou pode escolher temer aquele que criou o universo. Se você focalizar em Deus o seu temor, pode ter certeza que o divino vai cuidar de você, e comunicar isto às mais profundas fibras de seu ser, como só o Deus Criador sabe fazer.

E de repente, sem explicação racional, você vai perceber que não há mais nada a temer.

[1] 1999, dirigido por Kevin Smith

[2] Botterweck, Johannes; Ringgren Helmer, ed., Theological Dictionary of the New Testament, vol. VI 1990.

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