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Como a visão de evangélicos e de progressistas muda nome e formato do evento nas escolas

Em instituições de ensino 'progressistas', tendência é de ampliar recorte e incluir outras culturas na comemoração.

19/06/2024 às 07h19
Por: Redação Verguia Fonte: @ Redação com Assessoria
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Foto: Felipe Menezes/Metrópoles
Foto: Felipe Menezes/Metrópoles

Por que as festas juninas das escolas estão recebendo outros nomes nos últimos anos, como “festa da colheita” e “festa da tradição”? E por qual motivo alguns colégios até desistiram de juntar as crianças para dançar quadrilha e brincar de pescaria?

Diante do avanço das religiões neopentecostais, é mais comum ver crianças 'proibidas' pelos pais de ir a festas que, por essência, celebram santos católicos.

São duas razões principais:

Em tese, a cerimônia homenageia santos católicos (São João, Santo Antônio e São Pedro), que não são cultuados por famílias evangélicas [entenda mais abaixo].

Com o crescimento das religiões neopentecostais no Brasil, o número de alunos que não são liberados pelos pais para participar das festas tende a aumentar.

Ao trocar o nome da comemoração ou cancelá-la, a escola tenta evitar que parte dos estudantes se sinta excluída.

A professora Rebeca Café, de 29 anos, por exemplo, nunca pôde participar da festa junina da escola quando era criança.

“Tentavam explicar para os meus pais, evangélicos, que a gente só ia comer comida gostosa e dançar, mas não tinha jeito, eles achavam que era um culto a santos da Igreja Católica. Eu e mais quatro alunos da classe ficávamos de fora”, diz.

“Agora, na escola [pública] onde trabalho, só três crianças da minha turma não são evangélicas. A alteração [do nome da festa] se fez necessária. Mas ainda acho que precisamos conhecer a história do nosso país, não importa a religião.”

No outro extremo, em menor escala, colégios mais “progressistas” têm tentado transformar as tradicionais festas juninas em cerimônias mais abrangentes, para “celebrar outras crenças e culturas” do país.

Na Escola Vera Cruz (SP), por exemplo, o evento para o ensino médio passou a incluir outras tradições culturais brasileiras - o ponto alto não será a quadrilha, e sim um cortejo afro inspirado em São Luís do Paraitinga.

Para Amailton Azevedo, professor de história da PUC-SP, não importa qual seja a razão de “abandonar” a festa junina: será um equívoco do ponto de vista histórico e pedagógico.

“Deixar de comemorar é dar de ombros para uma tradição secular da cultura brasileira, trazida pelos portugueses no século XVI, mas que assumiu marcas próprias e incorporou elementos culturais afro-indígenas”, explica.

“As festas juninas são um patrimônio imaterial riquíssimo do ponto de vista histórico e cultural. É um erro abandoná-las e impedir as crianças de brincar. Esse conservadorismo é retrógrado.”

Ele também critica a postura de dissolver a festa junina (e todas as suas variantes regionais) e transformá-la em qualquer outra comemoração.

“A celebração de outras culturas pode ocorrer em qualquer outra data do calendário escolar. Temos uma enorme gama de festividades brasileiras e internacionais.”

Já a antropóloga Denise Pimenta, da Universidade de São Paulo (USP), reforça que não faz sentido resistirmos às mudanças.

“A gente vê uma ascensão do início de um estado evangélico. A escola vai deixar de reforçar tradições católicas. Acho muito difícil que a festa desapareça, mas não vai mais se pautar por São João. Vai chamar, por exemplo, festa das tradições”, afirma.

“No fim, foi isso o que o catolicismo fez. Era uma festa pagã que foi atrelada pela Igreja aos santos. Essas mudanças acontecem. A tradição não está morrendo: está se adaptando para continuar viva.”

E um lembrete: outras comemorações, mesmo que com motivações não religiosas, já foram alteradas no dia a dia das escolas, como o Dia das Mães e o Dia dos Pais.

Para abarcar famílias com casais homoafetivos ou para não entristecer os alunos órfãos/abandonados, as datas são trocadas por “Dia da Família”, por exemplo.

De onde veio a festa junina?

A festa junina, a princípio, era pagã e servia para os europeus comemorarem a colheita e o solstício de verão (no hemisfério Norte, ele ocorre em junho).

Depois, com o avanço do cristianismo na Europa, a Igreja Católica apropriou-se da tradição e incluiu a celebração dos santos.

Com a vinda de portugueses para o Brasil, no início do século XVI, a festa veio “na bagagem”, mas foi adaptada à nossa realidade.

A dança, por exemplo, varia em cada região do Brasil, mas nada tem a ver com o que era apresentado pelas cortes europeias no passado.

O pisado forte na terra, por exemplo, no piseiro ou no forró, é uma herança indígena, e os ritmos e instrumentos musicais têm influência africana.

Evangélicos são proibidos de ir a festas juninas?

Não adiantou trocar o nome de “festa junina” por “festa cultural”: na escola onde Esther* dá aula, os pais de uma aluna evangélica não liberaram a criança para o evento.

“Entrei na sala e vi uma das crianças do 1º ano [do ensino fundamental] chorando, porque a família dela não ia deixar que ela participasse da dança. Ela e a amiga estavam discutindo se festa ‘é ou não de Deus’”, diz.

“Tentei intervir e explicar para a turma que estávamos seguindo uma tradição cultural, e não religiosa. Mas não adiantou. A mãe da aluna mandou um recado na agenda e avisou que a menina está proibida de participar de qualquer atividade relacionada a festas juninas.”

Por quê? Os evangélicos não acreditam em santos, como explicado no início da reportagem. Na interpretação que esses religiosos fazem da Bíblia, somente Deus deve ser adorado.

Talvez você esteja pensando que as festas da escola raramente mencionam os nomes dos santos - em geral, giram em torno das músicas, brincadeiras e comidinhas. Seria realmente “errado”, do ponto de vista dos não católicos, participar das danças e comer pipoca, paçoca e milho?

Não há uma resposta definitiva - dependerá da interpretação de cada fiel e da orientação das igrejas. Nas redes sociais, principalmente no TikTok, há vídeos de pastores esclarecendo exatamente este tipo de dúvida de seguidores evangélicos:

“Meu filho pode participar da festa junina da escola ou será pecado?”.

Vamos ver abaixo dois pontos de vista diferentes de pastores ouvidos pela reportagem:

1- ‘Existe algo de espiritual ali; é preciso fugir da experiência do mal’

O pastor Lúcio Andres, da Igreja Oceano da Graça (DF), recomendou nas redes que os pais evangélicos procurem a escola e informem educadamente que o filho não participará da festa junina.

À reportagem, ele disse que é preciso “dar a estrutura bíblica para a criança em casa, para que ela entenda a decisão” de não comparecer ao evento.

“Não é possível se apegar à pressão dos professores e das outras famílias. Existe algo espiritual na festa, é a consagração dos santos. É preciso fugir da experiência do mal”, afirmou.

Ele sugere que, em círculos evangélicos, as tradicionais festas sejam adaptadas e passem a dar ênfase exclusivamente a Jesus Cristo.

“Precisa ter um suporte espiritual favorável à Bíblia, com músicas evangélicas e de adoração, mesmo que em outros ritmos. Os santos não são mencionados e não há bebida alcoólica nem nenhum tipo de permissividade”, diz o pastor.

2- ‘Não é só a memória de um santo, é a nossa cultura’

Já o pastor Hermes Fernandes, mentor do grupo Ninho de Fênix, defende uma postura mais aberta dos fiéis. Para ele, não há problema frequentar uma festa junina mesmo sendo evangélico.

“Posso não ter devoção aos santos, mas celebrar a vida que tiveram", diz.

"Quando eu era criança, me sentia mal e excluído quando ficava de fora. Já adulto, com meus filhos, [que puderam ir à festa,] me diverti os vendo pintados, de chapéu de palha. É uma celebração da nossa cultura, que é de uma riqueza extraordinária."

* O sobrenome da entrevistada foi omitido a pedido dela.

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